CRONICA: Mirrada pescaria, por Mariene Francine Lima* Imprimir E-mail
Pesca
Sex, 16 de Setembro de 2011 21:25

A tarde findava e os homens iam chegando para colocar o papo em dia. Fazia um tempo que não conversavam. Combinaram de se encontrar no galpão das canoas do seu Kalanga. As conversas eram gostosas e se arrastavam pelo resto do dia. Assunto não faltava, comentavam sobre a pescaria da manhã, da falta de peixe, da graúda miraguaia que alguém pescou ou do mirrado camarão, que já nem enchia mais os baldes. Eram desabafos e risadas, misturas das histórias do mar e da terra.

As conversas se davam no galpão das canoas, pertinho da casa do seu Kalanga. No galpão, ficam as canoas de seu Kalanga e do seu sogro, já falecido. Canoas de um pau só, umas sobre as outras, amontoadas sob a pequena cobertura do galpão. Do lado deste galpão, que é todo aberto, tem uma casinha de madeira usada de apoio e base para as pescarias. Por ali, sempre se encontra uma rede abarrotada, umas bóias soltas e caixas largas de plástico para acomodar o pescado.

O cenário era uma mistura de bucólico, belo e desordenado, e ainda dava às vistas para o comecinho da baía da Babitonga, onde muitos deles saiam para pescar. Outros pescavam na baía e também fora dela, passando por Itapema e indo até a Barra do Saí.

Por vezes, eles se reúnem e deixam as horas passar com conversas dos tempos passados, das pescarias de menino, dos balaios cheios, dos contos antigos. Mas por esses dias a pesca tinha sido pouca.

- Antes, tinha mais camarão! Anunciava seu Manoel, assim que chegara ao galpão.

Seu Manoel é pescador antigo, já viu até a pesca da baleia. E pelos anos que tem e a experiência do mar, ele nos avisa:

- Tenho certeza, há anos atrás tinha mais e não eram tão mirradinhos, não. Cê não acha, não, Elias?

- Eta... Tinha camarão aí que era a coisa mais linda. Já tive camarão de 150g, cada um. Hoje, a pesca não dá mais nada.

- Também, o pessoal vem lá do sul com as traineiras, com tal do sonar. Completa seu João a querer inteirar-se na conversa. E continua:

- É sonar que chama, que conta que o peixe tá no fundo, né?

- É... Esse é o nome do aparelho... Tinha nos barcos da empresa lá de Santos, que trabalhei embarcado. Trabalhei por 11 dias embarcado... Eram dois barcos, e cada barco levava cinco pescadores. O trabalho era puxado e os dois barcos trabalhavam ao mesmo tempo, formando uma parelha e, assim, quando carregava, carregava os dois barcos. Enquanto um virava um lance, o outro já largava a rede. Sempre juntinho. A gente aprende um bocado lá. Eu gostei muito, confirma seu Kalanga, mostrando que já vira o tal do sonar.

- Pois então, daí é cercado na certa. Matam 3, 4 toneladas numa vez só. Vai se comparar com uma pescaria de linha? A pescaria agora desenvolveu muito, mais de 100%. Antigamente, tinha muito mais peixe, mas o aparelho era pouco, era a mesma coisa que tivesse pouco peixe. Não tinha aparelho pra matar. De linha lá fora, o peixe pega se quiser... Na rede não, vêm à forca. Resmungou seu João.

- A nossa pescaria é artesanal, depende do que vamos pescar. Por exemplo, eu comecei a trabalhar com canoa, tarrafa e rede de praia. Hoje, já tenho barco a motor, rede para pescar camarão lá fora, rede de emalhe para botar no mar, rede de fundeio... Então, já começou a mudar, né? Sugere seu Lelé, que acabara de adentrar o rancho, mas ouvira parte da conversa, enquanto chegava.

- Mas ó, comparado há 20, 25 anos atrás, não tem 1/3 do peixe que pegávamos antes. Diminuiu bastante. Afirma seu Zéquinha, como querendo concordar com o seu Manoel.

E continua, também dando razões para o seu Lelé:

- Tá certo que a nossa pescaria é aqui na baía mesmo, não vamo muito para fora. Vamo de manhã e voltamo a tarde. Ficamo mais de arrastar o camarão na costa mesmo.

- Pois é, eu já pesquei muito com barco a motor, mas quando eu era novo no negócio era só remo e vela... Ia no braço forte e com vento que Deus mandava. E tinha aquela destreza também: a gente olhava pra lua e sabia que vento ia dar. E a gente viajava mais com o tempo, pra lá e pra cá. Ia com o nordeste e voltava com o sueste. Sempre de remo, dava um jeito, né? Relembra seu Lelé, como quem ainda sentisse o nordestão [Diz-se do vento nordeste que nas praias do sul do Brasil é um vento forte e carregado] bater-lhe no rosto.

- É verdade, bem me lembro... Saía na barra e ia pro mar grosso de remo e vela, não existia motor. Sempre dependendo do vento... Se fosse pro sul, tinha que ter vento do norte; e pra vir do sul pro norte, tinha que ter vento do sul. Hoje pesco com tarrafa, espinhel, tudo tipo de rede, covo, rede de espera. Mas nunca pesquei com rede de arrasto. E hoje em dia mesmo, pesco mais é no rio. No mar, não pesco mais não... Já to cansado. Refletiu seu Manuel, num lampejo de memórias.

- Tem mais pescador que pescam por aparelhos do que por  conhecimento. Eles têm sonar, radar, sonda... Um bocado de coisa. Eles vão com o barco correndo e os aparelhos tudo ligado. Aonde acusa que tá o peixe, eles param e fazem a pescaria. Com a gente é diferente... Às vezes a gente sai às 15:00 ou às 16:00, retorna só às 01:00 e não pescou o suficiente para pagar o combustível que gastou. Isso aí é uma coisa que eu não concordo. Tenho 50 e poucos anos de pesca e eu não concordo com esse tipo de pescaria. Não é por eu ser pescador pobre, eu pesco, mas já tenho a minha  aposentadoria... Mas muitos dependem só da pesca. Se dá um mês de tempestade e tempo ruim, eles passam mal. Não tem jeito de pagar uma luz, água ou fazer um fornecimento. Não tem jeito de nada! Respondia indignado, seu Elias.

- Pois é o que falo: o pescador de hoje não é mais aquele pescador artista. Nós fazíamos a rede, nós fazíamos o barco. A canoa nossa era feita aqui. Hoje, a empresa faz o barco, fazem o que querem. Disse seu Lelé, já um pouco irritado.

O pessoal calou-se por alguns instantes como que a refletir sobre a conversa. Os olhos se perdiam ao longo da baía e o silencio dominava a noite.

Já passava das 20:00h quando dona Anair, esposa do seu Lelé, abanou para o marido, avisando-lhe que o jantar tava pronto. E assim, dispersaram-se... Uns foram para casa, outros se reuniram em novos grupos, e tinham aqueles que ainda iriam se encontrar mais tarde para olhar a lua, sentir o vento e imaginar como o tempo lhes esperaria amanhã...

*Mariene Francine Lima é bióloga, Mestre em Educação pela UFPR e colaboradora da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental. O texto faz parte da dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFPR:  “Mares e Pescadores: Narrativas e conversas em Itapoá”.

 

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