ARTIGO: Morcegos, por Werney Serafini Imprimir E-mail
Natureza
Seg, 18 de Julho de 2011 18:15

O forro lá em casa está infestado de morcegos! Eles podem ser eliminados?

A pergunta surgiu na Secretaria de Meio Ambiente de Itapoá, de uma senhora assustada com a quantidade de morcegos que invadiram a sua casa.  Ninguém sabia ao certo e, intrigado, fui à busca de resposta. Curiosidades de naturalista amador.

Encontrei no artigo 1º da Lei 5.197/1967, de Proteção a Fauna: “Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais são de propriedade do Estado, sendo proibida a sua utilização, destruição, caça ou apanha”.

Os morcegos são animais silvestres, portanto, no dizer da lei, a resposta é não podem.

Porem, no Parágrafo 2º, do Artigo 3º: “Será permitida, mediante licença da autoridade competente, a apanha de ovos, larvas e filhotes que se destinem aos estabelecimentos acima referidos, bem como a destruição de animais silvestres considerados nocivos à agricultura ou a saúde pública”.

Assim, se comprovada a característica nociva da espécie e mediante anuência da autoridade competente (IBAMA/ICMBio), a resposta é podem.

Entretanto, no pode e o não pode, falta o deve e o não deve e para isso é preciso conhecê-los.

Os morcegos (ordem Chiroptera) são mamíferos, têm o corpo coberto de pelos e alimentam a prole com leite secretado pelas glândulas mamarias das fêmeas. São os únicos mamíferos voadores, graças à membrana que une quatro dos seus cinco dedos do membro anterior, formando uma asa. Em geral são pequenos, não excedendo a 100 gramas de peso. A gestação demora de dois a sete meses e os filhotes, geralmente um por gestação, nascem sem pelos ou como uma pelagem tênue. São amamentados até os quatro meses e vivem de 20 a 30 anos.

Têm hábitos crepusculares e noturnos e orientam-se pela ecolocalização, emitindo sons de alta frequência não perceptíveis aos ouvidos humanos. O som, ao encontrar algum obstáculo, retorna sob a forma de eco. É o conhecido “radar” dos morcegos que os permite voarem rapidamente no escuro.

Ocorrem em todo o planeta, menos nos locais extremamente frios como os pólos.

Mais de mil espécies estão identificadas, das quais 138 no Brasil e algumas ameaçadas de extinção.

Classificam-se conforme o hábito alimentar: os Frugívoros, comedores de frutos, importantes para a dispersão de sementes em áreas desmatadas; os Polinívoros, que a exemplo dos beija-flores, alimentam-se de néctar e pólen das flores, costumam beber a água açucarada dos bebedouros dos pássaros; os Folíferos, que consomem folhas; os Insetívoros, que se alimentam de insetos e tem fundamental papel no controle de pragas agrícolas; os Carnívoros, que caçam pequenos animais vertebrados, como ratos, pássaros, lagartos e até mesmo outros morcegos; os Piscívoros, que comem pequenos peixes, como os barrigudinhos nas margens dos rios; os Ranívoros, comedores de rãs e sapos; os Onívoros, glutões e que comem de tudo; e os Hematófagos, os morcegos-vampiros que se alimentam do sangue das aves e mamíferos, como equinos e bovinos. Esses são os mais temidos pelos humanos, dos quais existem três espécies no mundo e apenas nas Américas. Duas atacam aves e uma aves e mamíferos.

Não suportam claridade, por essa razão, procuram abrigos que atendam suas necessidades de temperatura, umidade e luminosidade. Na natureza, utilizam as cavernas, frestas de rochas, copas de árvores e palmeiras. No ambiente urbano, porões e os sótãos das casas. Com a diminuição do habitat natural recorrem às cidades, transformando-se em “morcegos urbanos”.

As invenções humanas, como a iluminação pública, atraem grande quantidade de insetos, o que torna os insetívoros abundantes nas cidades.

Não costumam atacar pessoas, só as mordendo para se defender. Acontecendo, o local da mordida deve ser lavado com bastante água e sabão e os animais não devem ser mortos e descartados. O certo é procurar orientação médica no Posto de Saúde mais próximo e informar o órgão sanitário local.

Esse cuidado é importante, pois animais silvestres, e não só os morcegos, podem transmitir doenças como a raiva, por exemplo.

No forro de casa trazem inconvenientes, como a sujeira dos dejetos nas paredes e o mau cheiro.

Eliminá-los não é a melhor solução, pois, cedo ou tarde, serão substituídos por outros. A melhor forma é fechar as frestas que possibilitam o acesso dos animais. Não havendo alternativa, antes de qualquer atitude, lembrar que a autoridade competente deverá ser acionada, está na lei.

Os morcegos são importantes para o equilíbrio da biodiversidade. Um espécime adulto pode devorar mais de 600 mosquitos por hora, milhares por ano, fazendo rigoroso controle populacional desses insetos.

Significa que, se todos os morcegos fossem eliminados de Itapoá, os insetos, especialmente pernilongos, baratas e cupins aumentariam consideravelmente, tornando insuportável a permanência na praia.

Além disso, estima-se que perto de 250 espécies dependem das plantas como fonte alimentar e que dois terços das angiospermas das florestas tropicais são polinizados por eles.

“As pessoas têm um preconceito muito grande com os morcegos”, diz a pesquisadora Susi Pacheco, do Instituto Sauver, doutora em Zoologia e especialista nesses mamíferos. “Muitas vezes, matar um morcego pode trazer mais inconvenientes do que deixá-lo vivo e por perto”, complementa.

Alerta também, que não se deve utilizar produtos químicos para repelir os morcegos, pois, “como são mamíferos, os produtos que fazem mal a eles também podem fazer mal aos humanos”.

Na natureza, todos os seres vivos têm o seu papel e fazem cada qual, a sua parte, inclusive os morcegos que contribuem mais do que poderíamos imaginar. Matá-los simplesmente seria quebrar esse elo natural.

Para quem não sabe, habitam Itapoá há muitos anos e o testemunho está no nome da baía de que somos entorno. Babitonga, na língua indígena, significa Morcego.

Por Werney Serafini.

 

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