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São Francisco do Sul em 1907 era uma ilha, separada do continente por um sistema natural de canais.
Um ao norte, com 600 metros de largura, entre a Ilha do Linguado e a de São Francisco do Sul. Esse canal foi aterrado para permitir a passagem de ramal ferroviário para acesso ao porto.
Outro ao sul, com 400 metros de largura, entre o continente e a Ilha do Linguado, foi parcialmente fechado, permanecendo com abertura de 120 metros, sobre a qual foi construída uma ponte metálica, com a parte central móvel.
Na época, intervenções consideradas imprescindíveis para o crescimento do porto e da cidade.
Entretanto, em decorrência das restrições impostas ao fluxo da água, a corrente marítima que corria pelos três vãos da ponte, iniciou processo erosivo comprometendo as fundações dos pilares de sustentação da obra.
Ao que parece, o efeito não foi previsto e, o projetado para ser solução, transformou-se em risco para a segurança do tráfego ferroviário.
Ao mesmo tempo ocorreram alterações na profundidade do local. A barra sul do canal do Linguado – que em 1869, tinha 800 metros de largura e 1,8 metros de profundidade – sofreu contínuo assoreamento ocasionando a sua obstrução.
Em 1934, dada a situação em que se encontrava a estrutura da ponte, decidiu-se pelo fechamento total do canal, o que foi concluído em 1935.
Outra história – narrada pelo empresário Geovani Machado de Miranda de Joinville –, publicada recentemente no jornal Gazeta das Praias, conta que na época – governo de Getúlio Vargas – havia um projeto para a instalação da fábrica de caminhões da Mercedes Benz em Joinville. A contrapartida para o investimento previa o fechamento do canal, para que a indústria exportasse os seus produtos pelo porto de São Francisco do Sul, razão pela qual, o aterro foi realizado.
Segundo a versão, o Decreto nº 22.749 de 24 de maio de 1933 foi assinado pelo então Interventor do Estado de Santa Catarina Nereu Ramos, que profetizou dizendo: “Assino junto com a Ordem de Serviço a desgraça de São Francisco do Sul e de Joinville”, numa clara manifestação de contrariedade.
O canal foi fechado, a fábrica não foi implantada e, a baía da Babitonga acumula hoje milhões de metros cúbicos de lama e sujeira, além de reter metais pesados e outros poluentes em seu leito.
As cidades tiveram expressivo crescimento econômico, porém ambientalmente também cresceu a degradação da baía.
Os canais interrompidos transformaram a Ilha de São Francisco do Sul no que é atualmente, uma península.
As interferências resultaram em alterações, notadamente no sistema hídrico da baía afetando diretamente a sua biota.
A Babitonga passou a contar com uma única conexão com o oceano consolidando o surgimento de dois estuários, o da Babitonga e o do Canal do Linguado.
Naquele tempo, não se falava em modelos matemáticos para análise das correntes marítimas, em impactos ambientais e muito menos em processos de licenciamento, consultas e audiências públicas.
Porém, há registros de que em 1948, os jornais traziam matérias sobre a necessidade da reabertura do Canal do Linguado, apontando o erro do fechamento, prevendo consequências danosas para a Babitonga.
A fixação da Barra do Sul ocorreu em 1980, pois o fechamento do canal vinha causando problemas a população que ocupou a margem assoreada.
Outras consequências também surgiram em localidades do entorno, como Itapoá.
Pelo canal demandam os navios para o porto de São Francisco do Sul. Em razão do tráfego, o canal sofreu dragagens para permitir a navegação de embarcações de maior calado. Os 3/6 metros de profundidade média original foram aumentados – na década de 1980 – para 11 metros, alterando, segundo estudos, a dinâmica da costa de Itapoá, que apresenta déficit da areia levada para o canal.
Esse seria outro efeito das intervenções feitas no Canal do Linguado que, 70 anos depois, põem em risco, não mais a ferrovia, mas as praias de um balneário turístico.
A natureza é pródiga com os seres que nela coexistem, mas impõe cuidados e precauções. É preciso ter consciência de que tudo está interligado e o que acontece aqui, pode resultar em efeitos acolá.
Voltaire, após o terremoto que assolou Lisboa em 1755, sabiamente enunciou: “o homem argumenta, a natureza age”. A afirmativa permanece atual nos nossos dias.
Por Werney Serafini.
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