ARTIGO: O fantasma da praia, por Werney Serafini Imprimir E-mail
Natureza
Dom, 26 de Junho de 2011 23:50

O mar voltou a assombrar. Tal qual um fantasma em repentinas e sucessivas aparições.

As ressacas ocorridas em junho castigaram Itapoá. Grandes volumes de areia novamente foram suprimidos da praia, residências à beira mar invadidas, equipamentos públicos ameaçados, outra das anunciadas e preocupantes catástrofes.

Proprietários sem saber o que fazer e na falta de orientação depositam enormes pedras na praia para protegerem seus imóveis. Vã iniciativa, pois as contenções anteriores foram tragadas pelo mar transformando as “fortalezas” em ilhas artificiais. Aviso de que a improvisada proteção se mostra impotente à energia do mar. A constatação evidente é que Itapoá está fadada a perder o seu maior patrimônio – a extensa praia com areias limpas e não poluídas.

Importante foi a manifestação do vereador Izaque Goes (PSDB) na Câmara Municipal, reconhecendo em público essa realidade.

Em seu discurso, disse que ao vir morar em Itapoá, entendia como necessária a ocupação da orla, em especial as áreas frontais ao mar. Um espaço que poderia receber estruturas para turismo e lazer. Não concordava com as ações civis do Ministério Público, impedindo novas construções e sugerindo a demolição de outras edificadas inapropriadamente. Para ele, entrave ao desenvolvimento turístico do município. Hoje, reconhece a assertividade do Promotor Público.

Coincidência ou não, os efeitos da ressaca se fizeram sentir justamente após o recente aprofundamento do canal de acesso ao porto de São Francisco do Sul, reforçando a hipótese levantada pelo geólogo e técnico da Universidade Federal do Paraná, professor Angulo, estudioso da erosão da orla no litoral do Paraná e do litoral norte de Santa Catarina.

Essa hipótese levou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), na licença ambiental para as obras de aprofundamento do canal, incluir como condicionante a realização pelo porto de São Francisco do Sul, de estudos a respeito da erosão em Itapoá e a possibilidade do “engordamento” da praia, a exemplo do que será feito em Matinhos/PR e foi realizado em Piçarras/SC.

Os estudos, contratados e em execução, têm prazo para conclusão. É fundamental que sejam acompanhados e divulgados à população. Afinal, é conhecido o efeito, resta saber as causas da erosão.

A par disso, e depois de idas e vindas, o executivo deu início ao imprescindível Projeto Orla. Um encaminhamento para diagnosticar, ordenar e projetar a ocupação da orla marítima de Itapoá.

Isso não significa que o Projeto Orla por si próprio resolverá definitivamente a erosão. Mas será um instrumento para se definir o que fazer em relação ao fato.

Diversas oficinas de trabalho, envolvendo Executivo, Legislativo, sociedade civil organizada de Itapoá e a participação do SPU (Secretaria do Patrimônio da União), Ibama, Marinha e Fatma (Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina) foram realizadas. Um pré-projeto elaborado para ser submetido aos órgãos estaduais e federais responsáveis pelo planejamento costeiro, também. Mas parou por aí. Não foi adiante. Está adormecido em alguma mesa.

Segundo consta, em razão de divergências técnicas referentes ao mapeamento cartográfico elaborado pelo Município e o do Ibama. Aguarda-se, pacientemente, a manifestação deste.

Enquanto isso, o Projeto Orla fica no “compasso de espera”. O risco é de que caia no esquecimento, como tantos importantes projetos estruturantes.

Para as pessoas que dedicaram voluntariamente o seu tempo nas exaustivas oficinas, sobra a incomoda e frustrante sensação do “tempo perdido”. Do “faz de conta que fazemos” ou do conhecido expediente do “deixa rolar”.

E o fantasma, persiste na assombração, protesta com a veemência da energia das ondas. Se invadimos ou não a área do seu interesse, não lhe importa. Apenas quer saber o que pretendemos fazer.

Por Werney Serafini.

 

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