ARTIGO: O que fazer com o lixo? Imprimir E-mail
Natureza
Seg, 16 de Maio de 2011 01:04

Por Werney Serafini

Um dos maiores problemas ambientais nas cidades brasileiras, das grandes às pequenas, é o saneamento básico e, especialmente, o descarte dos resíduos sólidos, ou seja, do lixo gerado em volumes crescentes pela população.

A última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que apenas 18% dos 5.565 municípios brasileiros têm programas voltados a coleta
seletiva do lixo, por exemplo.

A maioria desses programas surge de iniciativas pontuais, feitas em escolas, pontos de entrega voluntária ou ações de empresas e pessoas preocupadas com o problema e que desejam contribuir de alguma forma.

Em Itapoá existem alguns, como a coleta de óleo de cozinha nas escolas, a distribuição de receptáculos para pilhas e outras iniciativas esporádicas como premiações para entrega de recicláveis, embalagens pets, recolhimento de resíduos nos rios e praias, entre outros.

Nem sempre eficazes e frequentemente de curta duração.
Segundo Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP “a questão do tratamento dos resíduos sólidos urbanos no Brasil não é de natureza tecnológica ou financeira, mas uma questão de opção política”.

Em sua opinião, seria perfeitamente possível a reciclagem e o reaproveitamento do lixo, mas “isso não é feito por incapacidade técnica ou de gestão e sim por uma opção política que prefere tratar o lixo como uma fonte de negócios”.

Destaca também, que apesar das evidências de que não será possível conviver em escala planetária com uma quantidade gigantesca de produtos como o que está sendo produzido e consumido atualmente, paradoxalmente pouco é feito em relação à racionalização do consumo. A regra é consumir e cada vez mais.
“O modelo de redução da pobreza adotado pelo Brasil hoje é por meio da expansão da capacidade de consumo, ou seja: integrar a população ao mercado para que elas possam cada vez mais comprar objetos. E como esses objetos serão tratados depois de descartados não é visto como um problema, mas como um campo de geração de negócios”, afirma.

Na sua avaliação, os produtos “reciclados”, surgidos como alternativa para a redução de resíduos agravou a situação, pois não deixam de serem novos produtos que também serão descartados. “São mais produtos para ir para o lixo”, diz.

Em março passado, realizou-se evento internacional sobre os “Resíduos Sólidos Urbanos e seus Impactos Socioambientais” promovido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Boras da Suécia. Reuniram-se pesquisadores das duas universidades e diversos especialistas para debater sobre possíveis soluções para a gestão dos resíduos sólidos urbanos, destacando a experiência da cidade sueca.

Em Boras, os resíduos sólidos gerados por uma população de 60 mil habitantes é quase totalmente reciclado, tratado biologicamente ou transformado em biogás que abastece residências, estabelecimentos comerciais e a frota de 59 ônibus do sistema público de transporte da cidade.

Por essa razão, o descarte de lixo é quase inexistente e o sistema de produção de biogás um dos mais avançados da Europa.

Destacou o professor de biotecnologia da Universidade de Boras, Mohammad Taherzadeh: “Produzimos três milhões de metros cúbicos de biogás a partir de resíduos sólidos. Para atender a demanda por energia, precisamos resíduos que possam ser incinerados e importamos lixo de outros países para alimentar o gaseificador”.

Um contraponto apresentado no evento foi em relação à incineração nos gaseificadores para transformar o lixo em energia.
A tecnologia tem tido resistência no Brasil. Isso porque em São Paulo os primeiros incineradores apresentaram problemas, como a produção de poluentes (dioxinas), e também gases de efeito estufa.

Entretanto, segundo o professor José Goldemberg do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, a maior parte desses problemas técnicos foi resolvida. “Até então, não se sabia tratar e manipular o material orgânico dos resíduos sólidos para transformá-lo em combustível fóssil. Mas, hoje, essa tecnologia já está bem desenvolvida e poderia ser utilizada para transformar a matéria orgânica do lixo brasileiro, que é maior do que em outros países, em energia renovável e alternativa ao petróleo”, explicou.

O modelo de gestão adotado em Boras integra comunidade, governo, universidade e instituições de pesquisa. Começou a ser implementado em meados de 1995 e foi acelerado a partir de 2002, em função da legislação que baniu a existência de aterros sanitários nos países da União Européia.
Para atender à legislação, implantou-se a coleta seletiva de lixo e os moradores além de separarem os resíduos, os descartam em coletores distribuídos em locais predeterminados na cidade. Desses pontos, são enviados para a usina e classificados por processo ótico, sendo então encaminhados para reciclagem, compostagem ou incineração.

Em dezembro de 2010, o governo brasileiro elaborou e regulamentou o Plano de Gestão de Resíduos Sólidos que tem como propósito erradicar os aterros sanitários no país até 2015, além de tipificar a gestão inadequada de resíduos sólidos como crime ambiental.

Na União Européia a questão da coleta seletiva ganhou impulso com a elaboração de legislação específica que proibiu a construção de aterros sanitários ou de lixões como os que existem no Brasil.
Tal como lá, a legislação será o primeiro passo para a solução do problema. Resta saber se a determinação legal será cumprida e não, como geralmente acontece, flexibilizada na medida em que, em função de “dificuldades” - omissão ou negligência dos gestores públicos amparados na justificativa da indisponibilidade de recursos – sofram as usuais prorrogações, reformas e adaptações.

Vale uma reflexão isenta sobre o diagnóstico da professora Raquel Rolnik: “isso se deve a um modelo de gestão baseado na idéia de tratar os resíduos como mercadoria, como um campo de produção de negócios, em que o mais importante é que as empresas que trabalham com lixo ganhem dinheiro. Se tiver reciclagem, terá menos lixo e menor será o lucro das empresas”. 


(Baseado no artigo: “O Lixo Extraordinário”, de Elton Alisson, publicado pela Agência FAPESP)

 

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