Jornal impresso “A Notícia” deste sábado trata do abandono de cães em Itapoá Imprimir E-mail
Natureza
Sáb, 14 de Maio de 2011 15:55

Durante uma rápida caminhada pelas ruas de Itapoá, no Litoral Norte do Estado, fica evidente a quantidade de cães espalhados pelas ruas. Em grupos de três ou quatro, os animais sobrevivem de lixos e de restos de alimentos. Moradores e o poder público se dizem preocupados com a situação. Até agora, nenhuma iniciativa saiu do papel para amenizar de forma significativa o problema. Mas pequenas ações feitas pelos habitantes têm surtido algum efeito, não somente no sentido de retirar os cachorros da rua, mas também para acabar com os maus-tratos de animais, comuns na região.

A dona de casa Maria Lúcia Bogo Tavares, de 46 anos, poderia ser uma mulher comum, que dedica seu tempo ao marido, filho e ao cuidado com a casa. Porém, nos últimos sete anos, seus dias são preenchidos pela ajuda a cachorros abandonados na cidade de 14 mil habitantes. A jornada começa todas as manhãs e finaliza à noite. Em sua casa, ela abriga provisoriamente mais de 300 animais, que a reconhecem e comemoram a chegada da anfitriã.

São cães de raça, vira-latas, gatos e até cavalos abandonados por moradores e veranistas que passam pela cidade. “Por ser um município praiano, o pessoal larga os animais aqui”, lamenta. E não é somente abandonar. Segundo ela, há quem amarre os bichos em postes e até tente matá-los. Um exemplo disto está representado em um aviso à Justiça feito em 19 de abril pelo Ministério Público de Santa Catarina.

A promotora de justiça Bárbara Elisa Heise recebeu no ano passado a denúncia de que uma moradora, Mária de Fátima Xavier, tentara matar seu cachorro. No fim de julho, a Promotoria de Itapoá fez um acordo com a acusada, que aceitou prestar serviços comunitários e pagar as despesas com veterinário para o cão.

As 52 horas de serviços comunitários foram prestadas, mas o custo para curar o cão ainda não foi pago integralmente. O MP alertou a Justiça, no último dia 19 de abril, sobre o descumprimento do acordo. A reportagem entrou em contato com a acusada, que mora no balneário de Itapema do Norte, mas ela não quis falar sobre o assunto. Mesmo com a sentença, o processo judicial ainda não foi concluído.

O cachorro vive agora no abrigo de Maria Lúcia e, segundo ela, o bicho é considerado o mascote da Associação de Proteção aos Animais Carentes São Francisco de Assis. E como homenagem, o cãozinho recebeu o nome de Chico.

Torcida a favor e contra
A dona de casa Adriana Rodrigues da Silva, de 36 anos, é vizinha de Maria Lúcia. Todos os dias ela acompanha a rotina tumultuada que inclui resgate de cães abandonados e cuidados com os animais. “A gente fica orgulhosa. Uma pessoa que cuida de mais de 300 cachorros e vive para os bichos não é fácil de encontrar”, comenta. Nos tempos livres, Adriana até dá uma ajuda para a vizinha, mas não quer participar da associação nem se comprometer com os animais.

Mas não são todos os moradores que veem com bons olhos o abrigo de cachorros. Há mais de dois anos, Maria Lúcia foi denunciada por causa do mau cheiro. “Fiquei tão mal. Falei com o prefeito (Ervino Sperandio), que propôs abrir uma associação. No começo, eu não queria porque tinha que montar uma equipe. Foi bastante trabalhoso”, lembra.

E a abertura desta associação começa a ter resultados. Pela primeira vez recebeu repasse de R$ 3 mil da Prefeitura, valor que será destinado mensalmente à entidade. O dinheiro, segundo Maria Lúcia, será revertido para a compra de ração. Por mês, ela gasta R$ 4,5 mil com alimentação para os bichos, montante que era custeado pelo marido, que trabalha como auditor fiscal do Estado do Paraná.


Associação briga por sede
Agora, a atenção de Maria Lúcia se volta para a aquisição de um terreno para a construção de uma sede para a Associação de Proteção aos Animais Carentes São Francisco de Assis e de um abrigo para os animais. Os cães estão distribuídos no quintal da guardiã e em 12 terrenos baldios. Como ela trabalha sozinha, não há condições de dar mais cuidados e conforto aos bichos.

A Prefeitura chegou a oferecer um lugar de menos de mil m2. Mas, segundo Maria Lúcia, não é suficiente para dar conta da demanda, que aumenta a cada dia. “Preciso de uma área de no mínimo 5 mil m²”, diz a dona de casa.

O prefeito Ervino Sperandio (PSDB) espera a resposta do proprietário de um terreno próximo da área a ser doada, que pode ser cedido em comodato. “Não sei ainda a resposta”, diz. Caso não consiga, ele tentará buscar novas áreas no município. “O que temos que ter é uma solução. Estamos dando total apoio (à associação)”, destaca.


Opinião de A Notícia: Animais abandonados
Os animais soltos em Itapoá, tema de reportagem na edição de hoje, mostram mais uma vez a dificuldade do poder público em adotar providências dessa demanda de saúde pública – o perigo de transmissão de doenças se agrava com cães, gatos e outros animais soltos sem qualquer cuidado nas ruas. No caso de cidade litorânea, a situação se agrava ainda mais porque há veranistas que resolvem abandonar os bichos depois da temporada. Mas o problema se repete em boa parte das cidades do País. Na região Norte, São Francisco é um dos exemplos positivos, com serviço de atenção aos animais. Joinville é um exemplo negativo.

Pelo menos desde a década de 1990 é cobrada a construção de um centro de zoonoses, espaço que poderia se encarregar da castração de animais e enfrentamento das doenças transmitidas por eles, entre outras várias funções. Na década passada, se juntou a essa reivindicação uma coordenadoria de bem-estar animal, voltada à recuperação de cães e gatos, especialmente, abandonados ou agredidos, tarefa hoje bravamente desempenhada pelos voluntários da ONG Abrigo Animal.

Só que até agora nada saiu. Há verba liberada de convênio com o governo federal e no segundo semestre é possível que as obras comecem. Na Câmara de Joinville, há projetos sugerindo a esterilização, mas ainda não aprovados. Há estudos também para ONGs participarem desse esforço. Só que é preciso começar os serviços na prática.


Matérias do Jornal A Notícia.

 

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