ARTIGO: Itapoá e as florestas III - A educação ambiental para melhorar a relação do homem com a floresta Imprimir E-mail
Natureza
Dom, 24 de Abril de 2011 12:56

Por Werney Serafini


“O futuro sustentável das florestas vai exigir, no entanto, a adoção de um novo paradigma cultural no qual as motivações para a conservação não sejam apenas legais, econômicas e ecológicas, mas também afetivas, estéticas, culturais, espirituais e éticas. Esse novo paradigma ainda deverá ser devidamente desenvolvido e aplicado e, portanto, dependerá da disposição das próximas gerações em mudar a maneira com se relacionam com a floresta. Precisamos incluir as crianças e jovens brasileiros nesse esforço, e desenvolver abordagens efetivas para transformá-los em cidadãos que se relacionam de forma responsável com as florestas. Iniciativas com esse objetivo já existem”. (Silvio Marchini, biólogo, doutor em Conservação da Vida Silvestre e fundador da Escola da Amazônia).

Com esse pensamento, o biólogo Silvio Marchini e a empresária Vitória da Rita Carvalho criaram em Alta Floresta (MT) a Escola da Amazônia, inspirada em projeto de educação ambiental desenvolvido em 2002.

A escola pretende estimular a conservação da biodiversidade na Amazônia por meio da educação, da comunicação e da extensão.  É coordenada pela Fundação Ecológica Cristalino (FEC), organização sem fins lucrativos, dedicada à proteção do bioma amazônico e focada no Parque Estadual do Cristalino, no norte do estado de Mato Grosso.

Eles consideram que o desmatamento, a extração ilegal de madeira ou a abertura de estradas, não são os maiores problemas ambientais na Amazônia e sim a desinformação e insensibilidade das pessoas em relação a esses problemas.

A escola atua em frentes distintas, uma local e outra global, e na integração entre as duas realidades. A local é realizada em oficinas temáticas para as crianças e jovens de Alta Floresta. A global em atividades para pessoas que vivem distantes da Amazônia. No programa denominado “Escolas Irmãs” integram as frentes por meio da cooperação entre as escolas públicas de Alta Floresta e os colégios particulares dos grandes centros urbanos. Além dos mútuos benefícios acadêmicos proporciona resultados materiais para as escolas de Alta Floresta, obtidos com parte da renda gerada pela participação dos colégios particulares de outras localidades.

Utiliza a estrutura do Floresta Amazônica Hotel em mata de 50 hectares, trilhas, torre de observação e um ninho de gavião-real, ou harpia (Harpia harpya). O ninho produz filhotes há vários anos, comprovando que a área, mesmo cercada de outras desmatadas, ainda é uma amostra representativa da floresta amazônica.

Atua também na Ilha Ariosto da Rita, na foz do rio Cristalino com 570 hectares, alojamentos e refeitório, administrada pela Fundação Ecológica Cristalino e, na Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN do Cristalino, com 7.000 hectares, trilhas, torre de observação e acomodações proporcionadas pelo Hotel de Selva Cristalino.

Em Itapoá (SC) a Associação de Defesa e Educação Ambiental – ADEA, implantou em 2005, o projeto de Educação ao Ar Livre em parceria com a RPPN – Reserva Volta Velha para atender alunos da rede de ensino público e escolas particulares de Joinville (SC), Curitiba (PR) e outros centros.

Como premissa a conscientização das crianças e jovens da importância em conservar os remanescentes da Floresta de Planície Costeira da Mata Atlântica, a integração do homem com o meio ambiente, além de ampliar conceitos e valores humanos, como convivência, responsabilidade, respeito, solidariedade e autonomia.

Incorporou a metodologia de vivências ambientais desenvolvida pelo Glen Helen Outdoor Education Center de Ohio/USA há mais de 50 anos. A base pedagógica e adequação à realidade brasileira foram proporcionadas pela Síntese – Centro de Estudos, Aperfeiçoamento e Desenvolvimento da Aprendizagem, de Curitiba/PR, que atua há mais de 20 anos em estudos psicopedagógicos e desenvolve a Técnica de Grupos Operativos de Pichon Rivière.

As vivências eram feitas na Reserva Volta Velha unidade de conservação privada estabelecida em Itapoá, na estrutura implantada há alguns anos para atender acadêmicos da Antioch University dos EUA, nos programas de estudos e pesquisas dos biomas brasileiros, especificamente o da Mata Atlântica.

Em “acantonamentos” de três dias e duas noites, os estudantes eram divididos em pequenos grupos e, acompanhados por um Naturalista, desenvolviam atividades em trilhas temáticas: da Floresta e da Casa de Vidro, dos Animais e do Sambaqui e da Geologia no rio Saí-Mirim, ampliando o conhecimento e a percepção em relação ao patrimônio natural de Itapoá.

Os jovens participavam também de uma experiência rara para os moradores da região sul do Brasil. Numa réplica de autentica oca xinguana construída na Volta Velha e com a orientação de índio originário do Xingu, residente na reserva, vivenciavam a cultura indígena, seus costumes, rituais e crenças.

O recurso para execução do projeto foi obtido no Fundo Social (Turismo, Cultura e Esporte) criado pelo governo de Santa Catarina, com redirecionamento de parte do Imposto de Circulação de Mercadorias (ICMS) destinado por empresas privadas para projetos diversos aprovados no Fundo.

Em três edições (2007, 2008 e 2009) atendeu mais de 1.300 alunos do ensino fundamental e médio da rede pública de Itapoá. Os resultados, conforme avaliação pedagógica feita com os estudantes, professores e os pais foram promissores, principalmente pelo efeito multiplicador da vivência, tanto na sala de aula quanto em casa, com os familiares. Verificou-se uma mudança efetiva, na maioria dos participantes, na atitude em relação ao meio ambiente e na convivência em sociedade.

Iniciativas como essas, da Escola da Amazônia e do Centro de Educação ao Ar Livre são exemplos práticos de ações para a mudança comportamental dos jovens em relação às árvores, as florestas, ao mundo natural e a convivência na comunidade.

Entretanto, são iniciativas isoladas, viabilizadas por organizações não governamentais e apoiadas por empresas privadas. Perduram enquanto persistir interesse na disponibilização de recursos para continuidade. No caso de Itapoá, sujeito a sucessivos projetos para viabilizá-los através dos planos de incentivos fiscais, nem sempre replicáveis.

Deveriam ser permanentes para não sofrer solução de continuidade. Fazer parte dos programas de educação do município e agregadas ao currículo escolar, pois as atividades do contra turno têm papel fundamental na formação do jovem e são multiplicadas rapidamente nas comunidades do entorno das escolas.

A experiência obtida pelo projeto em Itapoá motivou a ADEA articular com a prefeitura e com o Porto de Itapoá a criação do Centro de Educação Ambiental Municipal de Itapoá – CEAMI, a ser implantado no Parque Natural Municipal Carijós, primeira unidade de conservação pública criada no município. A idéia é transformar o parque em centro permanente de educação socioambiental.

Iniciativas como essas deveriam ser apoiadas e priorizadas, como alternativas para mudar o paradigma de que os brasileiros são indiferentes às questões ambientais.

Entretanto, para que aconteça, é necessário que o poder público, especialmente os das localidades inseridas em áreas naturais relevantes como Itapoá, elaborem políticas que induzam o desenvolvimento em condições ambientalmente adequadas.

Por Werney Serafini, ativista ambiental e presidente do Conselho Diretor da Associação de Defesa e Educação Ambiental – ADEA em Itapoá (SC).

 

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