ARTIGO: Itapoá e as florestas II - A relação do homem com a floresta, por Werney Serafini Imprimir E-mail
Natureza
Sex, 15 de Abril de 2011 12:06

Para compreender os porquês da indiferença das pessoas, - brasileiros e itapoaenses - em relação às árvores e florestas, é interessante conhecer o que dizem os estudiosos das questões que envolvem o comportamento humano em relação às árvores e florestas.

Sílvio Marchini, doutor em Conservação da Vida Silvestre, ensina que o comportamento do homem em relação à floresta foi moldado pela evolução. “Cada espécie animal tem o ambiente preferido, onde suas adaptações lhe permitem prosperar”, diz.

Segundo a teoria da “Hipótese da Savana”, os ancestrais humanos teriam vivido nas planícies da África e desenvolvido uma preferência pelas paisagens abertas, onde era mais fácil caçar os animais de grande porte. Essa inata preferência estaria presente no homem moderno.

O homem é animal da savana - não é espécie florestal. Utilizava a floresta para obter alimentos ou outros recursos. No livro “Armas, Germes e Aço”, Jared Diamond diz que “o estilo de vida coletor-caçador dos povos das florestas proporciona dieta pobre em energia e que, por viverem em pequenos grupos, seriam incapazes de desenvolver a agricultura e a criação de animais, tecnologias que fizeram surgir às civilizações”. “Haveria, portanto, um fundamento biológico para o comportamento humano de evitar a floresta, e esse impulso ancestral talvez fosse à base para a nossa relação predatória com ela”, explica Marchini.

Outra teoria, a “Hipótese da Biofilia”, defende que a evolução teria selecionado no homem um sentimento de afinidade com o mundo vivo. Isso teria levado os ancestrais humanos a entender os riscos e as oportunidades do ambiente natural e contribuído assim para a sua sobrevivência. No dizer de Marchini: “A quinta-essência da diversidade e sofisticação no mundo vivo é encontrada na floresta tropical e, portanto, esse tipo de ambiente exerceria em nós uma atração instintiva especial”.

A par dessas teorias e, em concordância com a maioria dos pesquisadores, diz, também, que as variações no comportamento humano resultam daquilo que se aprende. Seriam então os conhecimentos e as crenças que determinariam nossas ações.

Os indígenas e as populações tradicionais acumularam profundo conhecimento sobre os recursos advindos das florestas, permitindo utilizá-las sem destruí-las.

Situação inversa a dos migrantes na fronteira agrícola da Amazônia, por exemplo. Na maioria, produtores rurais que vieram de regiões onde há muito tempo não mais existem florestas. Não sabem como obter renda dos recursos florestais. “Acreditam que a única maneira pela qual podem ganhar a vida é criando gado”, ou transformando a floresta em campos de agricultura.

Caberia uma analogia, entre as categorias populacionais de Itapoá que poderiam ser ilustrativamente classificadas em: os “nativos” (pescadores tradicionais), os “forasteiros” (migrantes de outras regiões com domicílio fixo na cidade), os “veranistas” (turistas de temporada e/ou ocasionais) e a mais recente, dos “novos forasteiros”.

O “nativo”, originário de Itapoá que vive (ou vivia) da pesca artesanal, fazendo uso do recurso [pescado], com mínimo impacto no ambiente. O pescador pouco degradava a floresta, limitando-se a utilizar determinadas espécies de árvores para construção da canoa. Praticava agricultura de subsistência, roçados de arroz e mandioca para complemento alimentar. Desmatava pequenas áreas da floresta, possíveis de serem trabalhadas nos intervalos da pesca e com o auxílio da família ou mutirões de vizinhos. Criava pequenos animais no terreiro de casa. Enfim, aprendeu a conviver com o mar e a floresta.

O “forasteiro”, pessoas que vieram para Itapoá exercer atividades no comércio e na prestação de serviços no período do verão ou, na construção civil e atividades imobiliárias durante a baixa temporada. Para a maioria deles, a vegetação nativa é considerada “mato” e como tal, deveria ser eliminada. O mesmo com relação às árvores, suprimidas para dar lugar às construções. De forma simplista as consideram entraves ao desenvolvimento urbano da cidade.

O “veranista”, ocasional visitante em busca de sol e mar. Desprovido de maior comprometimento com a cidade, além do período de lazer e descanso. A grande maioria desconhecendo a floresta e seus atrativos. No auge da temporada multiplicam por dez a população e causam grandes impactos ambientais. São ansiosamente esperados, pois é deles que vêm os recursos para a sustentação das atividades do comércio. Entretanto e, felizmente, cabe destacar que alguns em número crescente, vêm a Itapoá, para desfrutar da excepcional natureza aqui existente. Enquanto ela persistir...

Uma “quarta” categoria, ainda incipiente, é a dos “novos forasteiros”. As pessoas envolvidas nas atividades do Porto de Itapoá e das empresas que serão implantadas na área retroportuária. Esses, como a maior parte dos brasileiros, interessados nas novas oportunidades do “crescimento” local e, infelizmente, indiferentes as árvores e florestas.

Segundo Marchini, as nossas ações não são guiadas somente pela racionalidade dos conhecimentos e crenças, são movidas também pela emoção. O medo de cobras, aranhas e outros animais explicam em parte a falta de vegetação nativa nas proximidades das habitações. No entanto, pelo homem gostar de animais, plantas e paisagens naturais, é que algumas florestas são conservadas.  Os Parques Nacionais, por exemplo, foram criados levando em consideração diversos critérios, entre eles, a beleza cênica - a estética é fenômeno afetivo. “A falta de emoção, por sua vez, resulta na indiferença”, diz Marchini.

Diz também, que o comportamento humano depende do contexto social e cultural. Que as pessoas tendem a fazer aquilo que acreditam que os “outros” estão fazendo. “Se todo mundo desmata, então desmatar é certo, e eu também vou desmatar”, esclarece.

Porém, numa visão otimista, a modernização da sociedade é seguida por uma mudança de valores em relação à natureza e as florestas passam a ter importância pela sua biodiversidade e serviços ambientais prestados. Vista pejorativamente como “mato” adquire a imagem de lugar útil, importante e atraente, que merece ser visitado e cuidado.

Marchini conclui, dizendo que “na sociedade pós-industrial, o horizonte ético é expandido e considerações morais se aplicam cada vez mais à maneira como nos comportamos diante das florestas também: explorá-las de forma sustentável se torna algo moral”.

Mônica, agraciada pela longevidade da sua vida, após a leitura deste texto, silenciosa e discreta, entregou-me um pequeno papel. Nele, parte da letra do Hino das Árvores, de Olavo Bilac, cantado no Dia da Árvore, na escola em que estudava, 80 anos atrás:

Quem planta uma árvore enriquece,
 a Terra, mãe piedosa e boa:
E a Terra aos homens agradece,
a mãe aos filhos abençoa (…)



Por Werney Serafini.

 

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