ARTIGO: Itapoá e as florestas, por Werney Serafini Imprimir E-mail
Natureza
Dom, 10 de Abril de 2011 16:21

“O Brasil é o país das florestas. Com cinco milhões de quilômetros quadrados de cobertura florestal, concentrados na Mata Atlântica e principalmente na Amazônia, o Brasil possui a maior extensão de matas tropicais do planeta. Além de serem vastas, nossas florestas abrigam uma biodiversidade excepcional. Em apenas um hectare de Mata Atlântica, é possível encontrar mais de 450 espécies de árvores; um recorde mundial. Nada mais natural que o Brasil seja o único país no mundo cujo nome vem de uma árvore: o pau-brasil (madeira com cor de brasa). Mas isso não quer dizer que o brasileiro seja um amante incondicional de suas árvores e florestas. O Brasil é também o país do desflorestamento. A Mata Atlântica foi reduzida a 8% da sua cobertura original e é hoje uma das florestas mais ameaçadas do mundo”. (Silvio Marchini, doutor em Conservação da Vida Silvestre e fundador da Escola da Amazônia).

Podemos dizer que Itapoá é também município das florestas. Perto de 80% do seu território é coberto por vegetação nativa e possui um dos últimos remanescentes das Florestas de Planície Costeira do Sul do Brasil em bom estado de conservação. Além da diversidade de plantas de clima subtropical, - bromélias, por exemplo - abriga excepcional avifauna com espécies raras, endêmicas e ameaçadas de extinção – como a maria-catarinense e o bicudinho-do-brejo, entre outros – que fazem de Itapoá referência internacional em estudos ornitológicos e no turismo para observação de aves.

Infelizmente, é triste reconhecer que o itapoaense, tanto quanto a maioria dos brasileiros, é indiferente ao que acontece com as árvores e florestas. Assiste passivamente a supressão da vegetação nativa, complacente com a justificativa da prioridade ao ‘crescimento’ econômico e, supostamente, social do município. Mesmo que com a destruição, a olhos vistos, desse rico patrimônio natural.

A proteção das florestas e contenção do desmatamento resume-se a dispositivos legais, voltados às áreas de preservação permanente nas margens dos rios, ou das zonas de proteção ambiental do Zoneamento Ecológico Econômico. Aliás, raramente aplicados e tampouco fiscalizados. Na essência leis municipais de proteção, porém, sem muita efetividade.

Não existe política para incentivo à criação de áreas protegidas. Ao contrário, as propostas do poder público em geral são voltadas para ‘flexibilizar’ restrições legais quanto à ocupação do território, muitas vezes desconsiderando os limites ecológicos.

Em todo município apenas uma unidade de conservação – particular – e, recentemente, em razão das compensações ambientais das obras de infraestrutura para a operacionalização do porto de Itapoá, foi aprovado Projeto de Lei constituindo o primeiro Parque Natural Municipal, uma área pública de 40 hectares a margem do Saí-Mirim. Mesmo assim, ressalvada a possibilidade de ‘dragagem’ do rio.

Silvio Marchini diz que “a maneira como o brasileiro se relaciona com as florestas ficou evidente a partir de 1988, depois que imagens de satélite mostraram a magnitude do desmatamento, especialmente na Amazônia”. Também com a repercussão mundial causada pela morte, no mesmo ano, do seringueiro Chico Mendes, ativista defensor da floresta amazônica.

A reação das autoridades brasileiras foi à criação de áreas protegidas. A partir de 1992, foram criadas mais de 80 unidades de conservação somente na Amazônia.  Governo, empresas e instituições não governamentais deram início a diversos mecanismos de cunho econômico para proteger a floresta. Do incentivo ao extrativismo, ao manejo florestal, ao ecoturismo e ao pagamento por serviços ambientais, tendo por lógica os instrumentos financeiros e de mercado, como a valoração monetária da floresta, para fazer com que “ela valha mais em pé do que derrubada”, nas palavras de Marchini.

Entretanto, há que se considerar que a origem dos problemas ambientais está no comportamento humano e na crescente evidência de que esse comportamento não é determinado apenas por fatores contextuais como as leis e o dinheiro. Fatores individuais sugerem que a proteção das florestas deve levar em conta a dimensão humana no relacionamento homem e floresta.

Portanto, é preciso compreender o que o brasileiro e por extensão o itapoaense pensa em relação às suas florestas se quisermos uma mudança duradoura no comportamento em relação a elas. Enquanto isso não acontecer, perdurará a indiferença atual quanto à degradação dos ambientes florestais nativos, tanto no Brasil como em Itapoá.

Reverter essa indiferença é necessário para que não venhamos a ter no futuro, apenas 8% da vegetação nativa no território do município tal qual aconteceu com a Mata Atlântica no Brasil.

Por Werney Serafini.

 

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