ARTIGO: Cães sem teto, por Werney Serafini Imprimir E-mail
Natureza
Sáb, 02 de Abril de 2011 18:57

Cachorros em Itapoá é o que não falta. Muitos mesmo, e de todos os tipos, alguns resultado de indecifráveis miscigenações. Entre eles, os “sem-teto”, perambulando pela cidade.

Tantos, que se o IBGE os considerasse no senso, a estatística seria semelhante a da população do município. Poderiam até contribuir com o índice do FPM. E, talvez, vistos com outros olhos pelo prefeito, atento ao equilíbrio das receitas e despesas orçamentárias.

E não é só em Itapoá.  No mundo, estima-se que existam cerca de 500 milhões. Acredito, pois lá em casa, meus filhos têm quatro: o Paco, [recentemente falecido] e a Mel do Thiago; o Oki e a Maia do Leonardo, todos é claro, considerados “membros” da família.

Paradoxalmente, entre os cães também existem as desigualdades “sociais”. Tal qual entre nós humanos. Aqueles discriminados e marginalizados, os “sem teto” que vagam pela cidade, abandonados a própria sorte. A maioria, descuidados, magros, sarnentos e doentes, revirando as lixeiras na busca da sobrevivência do dia a dia. Muitos “esquecidos” depois do verão e que em liberdade vão se multiplicando numa progressão geométrica.

São tantos que, frequentemente, estão no noticiário dos jornais e blogs. E que audiência! Basta observar a quantidade de postagens com reclamações e cobranças feitas à administração pública.

O que fazer? Recolhê-los a um canil e castrá-los para conter a proliferação descontrolada? Ou, como propõe o executivo, repassar recursos a entidades protetoras dos animais, para cuidá-los? Assim, do tipo canil público terceirizado? Ouvi dizer que uma instituição reuniu uma grande matilha e que ao conhecer o montante da verba sugerida, antecipou que mal daria para alimentá-los.

Ou ainda, como sugestão feita num blog: lotar uma embarcação e soltá-los em São Francisco do Sul, do outro lado da baía. Isso porque ganharam o Premio Expressão de Ecologia do Ministério do Meio Ambiente, pela criação do Centro Municipal de Bem Estar Animal e da Unidade Móvel de Controle de Zoonoses, Educação em Saúde e Bem estar Animal (CEBEA). Acho que não aprovariam a ideia.

Do outro lado do oceano, Xangai, na China, anunciou que implementará uma medida inusitada, denominada “política do cão único” para controlar o número excessivo de animais na cidade. Inspirada no modelo da “política do filho único”, que impõe aos chineses um rigoroso planejamento familiar.

Estima-se que o número de cães “sem-teto” em Xangai seja quatro vezes maior que o número de cães “com-teto”, que lá serão registrados. Preveem que ao fim do período de registro, mais de 600 mil cães deverão ser considerados irregulares. Não dizem o que será feito deles...

Os donos que não legalizarem seus cães terão que entregá-los às autoridades. E, aqueles que tiverem mais de um poderão temporariamente, manter os animais. Entretanto, novos pedidos de registro somente serão liberados para residências sem cachorro. Também não serão licenciados os chamados cães de ataque, como os buldogues e pitbuls. Isso na China, país de discutível liberdade em que os direitos humanos não são tão observados como no Ocidente, tampouco os direitos dos animais. Mesmo assim, consta que a nova regulação gerou intensos debates entre os legisladores de Xangai.

Lembro que, quando menino, era mais ou menos assim. Meu cachorro, o vira-lata Negrinho, companheiro inseparável, quando dava suas escapadas e demorava a voltar, nos fazia correr ao Canil Municipal de Curitiba, para ver se a temida “carrocinha” não o tinha recolhido. Registrado, - número e nome gravado numa plaqueta na coleira - era resgatado mediante o pagamento de multa, uma espécie de fiança. Os que não eram reclamados, depois de certo período viravam “sabão”. Não posso afirmar, mas era o que diziam. Controvérsias a parte, uma forma cruel de controle.

O cão selvagem foi o primeiro animal domesticado pelo homem. Ao aproximar-se das antigas comunidades em busca de restos de alimentos, acabou adotado e integrado aos humanos. Era o guardião da comunidade, alertando da aproximação de outros predadores. Coadjuvante nas caçadas e companheiro fiel, no decorrer da convivência transformou-se num quase semelhante. Na evolução foi perdendo o instinto selvagem. Na moderna sociedade um bicho de estimação, com direitos garantidos e proteção legal, ganhou “cidadania”.

Infelizmente os “sem teto” causam problemas para os habitantes das cidades. Enxotados, agredidos e acuados, às vezes, respondem agressivamente aos maus tratos. Sujeitos a doenças transmissíveis aos humanos, um problema de saúde pública. Em agosto, conhecido como o mês do “cachorro louco”, se juntam em bandos atrás das fêmeas no cio. Como não são vacinados, ao morderem as pessoas, transmitem a raiva e outras zoonoses. Sufoco para todos, notadamente em Itapoá.

A solução passa a ser de ordem pública, ou seja, de responsabilidade da administração da cidade. O fato é que algo precisa ser feito e objetivamente. Para não ficar sem sugestões, arrisco um palpite: pesquisar o que outras cidades fazem. As grandes, as médias e principalmente as pequenas, carentes de recursos. Esse poderia ser um primeiro passo e na sequencia discutir as alternativas encontradas adaptando-as as circunstâncias de Itapoá.

O que não dá é fazer de conta que o problema é irrelevante frente a tantas outras prioridades. Nem adotar soluções paliativas que só fazem por prolongar a questão. Não podemos correr o risco de ver repetido o já acontecido em Itapoá, quando um morador, descrente na ação do poder público, decidiu por si próprio resolver o problema e partiu para o extermínio dos animais envenenando-os indiscriminadamente. Confiando na impunidade, estendeu a ação para os ‘com-teto’ e, deu no que deu...

O assunto não se esgota nos cães, tem ainda os gatos “sem-teto”... Menos visíveis – em razão da índole independente em relação aos humanos -, porém danosos às aves de Itapoá. Mas, vamos parar por aí, senão a história vai longe...

Por Werney Serafini.

 

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