ARTIGO: “Aonde vão as abelhas?”, por Werney Serafini Imprimir E-mail
Natureza
Sáb, 12 de Fevereiro de 2011 22:52

Mônica, na plenitude dos bem vividos 90 anos, sempre que vê na televisão notícias sobre os desastres ambientais vem com essa: “Nossa, meu filho, esse mundo está virado, o que está acontecendo?” Pergunta difícil e a resposta ainda mais. Para quem não sabe, Mônica é a minha dileta secretaria voluntária.

Há algum tempo e timidamente surgiram na imprensa as primeiras notícias sobre um fenômeno que vem intrigando os apicultores nos Estados Unidos. Apicultores são as pessoas que se dedicam à criação de abelhas.

As abelhas, produtoras de mel, estão sumindo e, surpreendentemente, sem deixar qualquer vestígio. O problema é conhecido como o “colapso das abelhas”.

Simplesmente elas somem. Abandonam as colmeias, deixando para trás o mel e o pólen armazenado e, às vezes, até as crias. Para onde se destinam ninguém sabe, ao menos por enquanto.

As hipóteses sobre as causas do fenômeno são as usuais: mudanças climáticas, agrotóxicos, vírus e parasitas, entre outras. Entretanto, como nas colmeias abandonadas não se encontram abelhas mortas o desaparecimento delas é um verdadeiro mistério.

Mas, o que está longe os olhos não veem. Isso está acontecendo nos Estados Unidos. Distante do nosso quintal. Não é bem assim, um dia pode chegar por aqui e mais rápido do que se possa pensar.

E, pelo jeito, chegou. Infelizmente. De meados do ano passado para cá, apicultores de Santa Catarina, o segundo produtor de mel do país, vêm notificando diversos casos de colmeias abandonadas pelas abelhas. Tal como lá, ninguém sabe o porquê.

O fato é que a ausência das abelhas afeta não apenas a produção de mel. Santa Catarina é o maior produtor de maçãs do Brasil. Os pomares dependem da polinização, feita por milhões de abelhas domésticas. Segundo informações do professor Afonso Inácio Orth do Departamento de Fitotecnia da UFSC, mais de mil colmeias polinizam as macieiras e noventa por cento da produção da fruta depende diretamente delas. Portanto, menos colmeias menos abelhas, menos abelhas menos maçãs e menos maçãs prejuízos no horizonte.

A chegada do fenômeno levou os produtores a formar uma comissão para estudar cientificamente o problema. Como primeiro desafio, saber quantos dos 30 mil apicultores catarinenses foram atingidos. Dá para imaginar o espanto da dona Mônica!

Ao que sabe, é suposto que o mal acomete apenas às abelhas domésticas. Aquelas trazidas para o país. Primeiro, a abelha-europeia (Apis mellifera), introduzida em 1839 para suprir os apiários na produção de mel e cera por serem mais produtivas do que as nativas. Originárias da Ásia e da Europa vieram para a América com os ingleses e espanhóis. Mais recente, a abelha-africana (Apis mellifera scutellata), de maior rusticidade, produtividade e resistência às pragas, em que pese à agressividade da espécie. Essa abelha dominou os enxames existentes e, atualmente, são predominantes.

Supõe-se que as genuinamente brasileiras, conhecidas como abelhas-sem-ferrão ou indígenas (gênero Melipona) podem não sofrer do colapso, o que é promissor. A bem da verdade, não se sabe. Elas, por serem endêmicas, têm importante papel na polinização das florestas e plantas nativas. Além de produzirem um mel tido como medicinal, tampouco são agressivas e muito fáceis de manejar. O senão está na baixa produção, cerca de um terço das africanizadas.

A preocupação com o problema está nos possíveis prejuízos em razão do desaparecimento das abelhas domésticas. Deveria ser estendida também aos aspectos conservacionistas, como polinizadoras das essências nativas, especialmente da Mata Atlântica. Alguns moradores das áreas rurais de Itapoá costumam ter colmeias da espécie Jataí em suas casas e extraem o saboroso mel para consumo doméstico. Quem sabe, a brasileira não venha a ser uma alternativa viável e ambientalmente adequada.

As pesquisas estão apenas começando. Não se tem elementos para afirmar que os problemas que acometem as abelhas brasileiras sejam os mesmos que ocorrem na América do Norte. Muito menos se as abelhas indígenas não serão suscetíveis ao colapso. As causas estão sendo investigadas pelos técnicos e pesquisadores.

No entanto, caberia adicionar uma sugestão. Que os estudiosos verifiquem em paralelo, a ocorrência do fenômeno também nas abelhas nativas. Aliás, a Epagri, empresa estadual voltada à pesquisa e ao desenvolvimento agrícola, é depositária de importante conhecimento sobre as espécies nativas, o que poderia ser compartilhado e incrementado para polinização das florestas.

Mônica ao ler o texto, ficou pensativa e, na serenidade da longevidade, concluiu: “Quem diria, até as abelhas...”

Por Werney Serafini.

 

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