Entrevista com Cabo Edival Pereira - Coordenador da Defesa Civil de Itapoá Imprimir E-mail
Entrevistas
Sex, 20 de Novembro de 2009 00:00

Há aproximadamente um ano, Itapoá vivia um dos momentos mais difíceis de sua história. Excesso de chuvas provocaram grandes enchentes e muitas famílias ficaram desabrigadas. Somente nesse momento é que muitos itapoaenses ficaram sabendo da existência, bem como do grande trabalho realizado pela Defesa Civil do Município. Coordenada pelo Cabo do Corpo de Bombeiros Militar, Antonio Edival Pereira, a Defesa Civil de Itapoá atua de forma muito intensa, prevendo o Município de novos desastres, como o ocorrido naquele fatídico novembro de 2008. Cabo Edival, como é conhecido, tem 43 anos, é natural de Joinville, porém adotou o município de Itapoá por escolha própria e mora por aqui há quatro anos. Ele concedeu a seguinte entrevista ao Diário de Itapoá:


O senhor já atuou atendendo a outros desastres, além das enchentes de novembro do ano passado (2008)?

Já tinha atendido a alguns eventos em Joinville. Eventos, estes, de alagamentos, escorregamentos de terra. Também tive a experiência de trabalhar no evento do Furacão Catarina. Sempre estive presente na Defesa Civil. Em Joinville, acompanhei desde a estruturação do que se tem em termos de Defesa Civil por lá atualmente, sendo que hoje, só acompanho voluntariamente e desenvolvo meu serviço na Defesa Civil aqui dentro de Itapoá. Aqui, nosso primeiro evento foi em fevereiro de 2008, sendo que ainda no mesmo ano tivemos três eventos pela frente, fechando com o de novembro, o maior. Lá em Joinville, eu já fazia parte da Defesa Civil, inclusive tenho várias especializações e capacitações nessa área, sendo, hoje, considerado um técnico de Defesa Civil.

Com relação à Defesa Civil, desde quando ela atua em Itapoá?
Ativamente, desde fevereiro de 2008. No mandato da gestão municipal anterior, foi criado o COMDEC (Conselho Municipal de Defesa Civil). Desde quando vim para Itapoá, em 2005, eu já ouvia uma preocupação com Defesa Civil. Como já era uma especialização minha, eu já me preocupava com essa questão, também. Hoje, faço pós-graduação e a minha monografia já está sendo elaborada, baseando-me na área, visto que meu curso é relacionado à segurança pública. Então, eu já procuro inserir a Defesa Civil no contexto.

A Defesa Civil de Itapoá possui outros membros?
Sim. Temos um conselho, do qual o Presidente é o Adalberto L., funcionário de carreira da Prefeitura. Os demais membros são pessoas de diversos segmentos da sociedade itapoaense. Na área de coordenação, temos o Adalberto (Presidente), a chefe de gabinete (Secretária) e eu, Cabo Edival (Coordenador Técnico). Já no conselho técnico, temos o Sargento Ferreira (Comandante do Corpo de Bombeiros), o Tenente Mário Elias (da Polícia Militar), o Elói Roberto Mendes (Secretário Municipal de Obras e Serviços Públicos), o Flávio (funcionário de carreira da Prefeitura), um representante do Jurídico da Prefeitura, o próprio Dr. Marlon Neuber (Procurador do Município), um representante da Câmara de Vereadores, um representante da polícia civil. Há, ainda, o conselho comunitário, o qual conta com representantes dos segmentos da sociedade civil organizada.

De que forma a Defesa Civil de Itapoá se relaciona com o Governo do Estado de Santa Catarina no que diz respeito aos recursos necessários para prevenção de catástrofes, como as enchentes, por exemplo?
A Defesa Civil de Itapoá está bem articulada. Essas obras que estamos vendo por aí não estão saindo à toa. Um exemplo são essas galerias de água pluvial que o Estado está construindo agora. A gente brigou muito por isso. Eu converso muito com o Secretário de Infraestrutura do Estado, Mauro Mariani, inclusive, na informalidade. Há alguns eventos, dos quais me faço presente e que o Secretário também costuma participar, onde converso com eles sobre as necessidades de Itapoá no que diz respeito à Defesa Civil. Devagar, vamos conseguindo os recursos necessários. A gente sempre procura se articular bem. Sempre é bom termos contatos como esses. Para a fomentação de recursos públicos, precisamos sempre de parceiros.

Fora as enchentes de novembro de 2008, quais foram os eventos de maior destaque, atendidos pela Defesa Civil de Itapoá?
Este ano (2009), recebemos verba para obras de prevenção à possibilidade de cheias, que é a verba que está sendo utilizada para a construção de galerias, para que as enchentes não atinjam mais, as áreas que foram mapeadas há um ano. Quando se deu o último vendaval, este ano (2009), a Defesa Civil, também se fez presente. Tivemos um período de chuva, também neste ano (2009), e a Defesa Civil esteve constantemente monitorando o rio, inclusive temos uma estação meteorológica em Itapoá, mais precisamente na Reserva Volta Velha. Quando começa a subir o nível do rio consideravelmente, nós orientamos a própria população ribeirinha a nos repassar as informações acerca do nível dos rios. Quando aconteceu o evento em novembro, em que o rio já estava saindo de sua calha, nós já acionamos previamente todos os recursos dos quais precisaríamos, então não tivemos dificuldades. Providenciamos abrigos provisórios e levamos as pessoas atingidas para esses abrigos e já tínhamos colchões, cobertores, cestas básicas, e a cozinha piloto cuidando da alimentação. Enfim, toda a logística foi bem estruturada. Na central de doações, a qual deu problemas a vários municípios, nós não enfrentamos dificuldades, porque nós já tínhamos o controle de entrada e saída de mercadoria. Cuidamos de tudo como se faz com empresa privada, com todo um sistema de distribuição, de onde só saíam mercadorias com destino certo e quem recebia assinava um recibo, sem contar que em muitas situações, íamos em loco, visitar os atingidos para verificar a real necessidade daqueles que buscavam doações. Tivemos um trabalho árduo, mas atendemos 100% da comunidade, principalmente os atingidos, para quem as doações foram direcionadas. Tivemos um período de 90 dias a partir da catástrofe, para que a Defesa Civil continuasse fornecendo cestas básicas às famílias atingidas, principalmente aos desabrigados. Conseguimos cumprir isso, através de parcerias muito grandes, como a com o Rotary Club, a CDL, enfim, todos os segmentos da sociedade civil organizada de Itapoá ajudaram, não teve nenhum que possamos dizer que não ajudou. Todo mundo colaborou. As pessoas do estado vizinho, Paraná, também nos ajudaram muito. Em contrapartida, também demos suporte aos veranistas que estavam por aqui e ficaram desabrigados. Então, acabamos tendo que atender não só a nossa população, mas também a população de veranistas.

Qual o seu planejamento em termos de Defesa Civil de Itapoá?

Meu planejamento, em termos de Defesa Civil é deixar aqui um legado de uma Defesa Civil atuante e com estrutura. A primeira mudança vai ser a atualização da composição do conselho, mas nós queremos criar uma coordenadoria aqui, porque a cidade está crescendo, está em franco desenvolvimento. Com o advento do Porto e da rodovia que passaremos a ter, outros problemas virão, como, por exemplo, os causados por transporte de produtos perigosos. Então, temos que ter uma Defesa Civil atuante e trabalhando na prevenção, juntamente com o Corpo de Bombeiros, que é o primeiro órgão de resposta que a Defesa Civil vai acionar quando necessário.

Há aproximadamente um ano, a Defesa Civil teve bastante trabalho com as enchentes que assolaram o nosso Município. Este ano de 2009, a Defesa Civil registrou algum atendimento proveniente de chuvas?
Tivemos uma média alta de chuvas entre agosto e setembro, e ficamos em estado de alerta para o caso de haver algum evento mais grave, mas não foi nada muito preocupante. O Estado já emitiu estado de alerta para ficarmos monitorando o mês de novembro, para o qual a previsão não é muito boa, mas por enquanto estamos tendo um novembro de bastante sol e que permaneça assim. Quando há uma densidade pluviométrica alta, ou seja, quando chove demais, a gente fica monitorando. A população ribeirinha nos mantém informados de como está a situação do rio, se ele está dentro ou fora da calha, ou seja, se ele está transbordando ou não e, enfim, como está a situação.

Caso haja novas enchentes, quais as medidas que a Defesa Civil tomará?

Hoje, com as obras preventivas, ou seja, com as galerias de água pluvial que o Poder Público está fazendo, com a limpeza das valas, entre outras obras, eu acredito que teremos minimizado os pontos de alagamentos e inundações. Todas essas obras farão o contingenciamento de cheias, mas se acontecer novamente, a Defesa Civil estará preparada para atuar nos momentos em que for preciso, temos o suporte e a estrutura necessária para atender a comunidade.

Quando ocorrem desastres, principalmente enchentes, quais são os maiores problemas verificados aqui no município de Itapoá?

Com relação às enchentes, o lixo no rio é um fator preponderante. É necessário evitar sujeira nas valas e rios, pois isto impede a passagem da água, principalmente da rede fluvial. Isso é de suma importância para diminuir o risco de alagamento e deixar fluir a água da chuva.

Existe algum cadastro na Defesa Civil de Itapoá voltado para voluntários ou pessoas e entidades que queiram fazer doações?

Existe, hoje, um cadastro para uma rede de voluntários para atuar na Defesa Civil do Estado. Para isso, basta acessar a página da Defesa Civil na Internet e se cadastrar por lá. Você pode efetuar esse cadastro e ser voluntário dentro do seu município. Meu objetivo, também, é implantar os núcleos de Defesa Civil, os NUDEC's, nessas áreas onde há maior incidência de alagamentos, para alertar a população sobre o lixo e, enfim, várias matérias para que a população ribeirinha desenvolva a percepção de risco e o que ela pode fazer para evitar isso. Doações, mesmo, somente durante o evento e, quando solicitado previamente pela Defesa Civil.

Há apoio da Prefeitura Municipal à Defesa Civil?

Sim. Ela auxilia na parte logística, quando precisamos de veículos, maquinários para desobstruir alguma coisa, caminhões para remover famílias, dependendo do local, tratores e, enfim, para toda a logística, temos o apoio tanto do Corpo de Bombeiros, como da Prefeitura. Contamos, nas grandes enchentes do ano passado, com a Prefeitura fornecendo alimentação aos voluntários, pois tivemos vários voluntários, tais como nossos guarda-vidas civis, pescadores, munícipes em geral, os próprios funcionários da Prefeitura, a Cozinha Piloto que foi sensacional, a Assistência Social que é um serviço importantíssimo dentro dessa área de Defesa Civil, pois se trata de um ponto crucial, principalmente no que diz respeito a atendimento dos desabrigados, porque abala muito o fator psicológico e assim, é necessário um grupo multidisciplinar com assistentes sociais, psicólogos, médicos, professores, enfim, todos esses profissionais precisam estar envolvidos no processo.

Mais alguma consideração importante que o senhor queira fazer?
Nas ocorrências de desastre não sobrevivem os mais fortes, sobrevivem os mais preparados. Os objetivos da Defesa Civil são: prevenção de desastres, preparação para emergência e desastre, resposta aos desastres, reconstrução (que é o que está sendo feito agora em Itapoá) e capacitações.

Onde são as maiores áreas de risco em Itapoá?
Hoje, as áreas de risco mudaram de lugar, devido às obras preventivas. Então, eu vou ter que fazer um novo mapeamento de risco, porque nessas áreas que eram as áreas de risco já foram feitas melhorias, ou seja, já foi feito um contingenciamento de cheias. Isso se chama prevenção.

Qual mensagem o senhor deixa para a comunidade itapoaense e àqueles que frequentam o nosso Município?
“Construir uma cultura de prevenção não é fácil. Os custos da prevenção devem ser pagos no presente e os seus benefícios estão em um futuro distante, ainda mais que os benefícios não são tangíveis e se referem a desastres que não acontecerão.” Kofi Annan



 

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