Soldado itapoaense que participou da missão brasileira no Haiti conta sua experiência Imprimir E-mail
Entrevistas
Ter, 04 de Dezembro de 2012 17:24

Soldado itapoaense que participou da missão brasileira no Haiti conta sua experiência.Morador de Itapoá desde que nasceu, pois sua mãe já era moradora do Município, Raphael de Almeida tem 22 anos e uma experiência impressionante servindo ao Exército Brasileiro.  Sua história em Itapoá começou na região central, onde passou a infância. Há 14 anos, ele é morador de Itapema do Norte. “Ao longo desses anos, fiz muitos amigos. Identifico-me muito com Itapoá, pois as pessoas são humildes e companheiras. Tenho muito orgulho de residir nesta cidade maravilhosa”, conta o soldado que concedeu, ao Diário de Itapoá, a seguinte entrevista:


Como iniciou a sua história com o Exército?
Minha mãe sempre lutou para me criar. Sempre demonstrou o desejo de que eu servisse ao Exército Brasileiro. Eu achava interessante, mas não tinha muito conhecimento sobre o alistamento. Então, vi na televisão, a propaganda sobre o alistamento. Soube que em Joinville havia um batalhão. Para retribuir o que ela sempre fez por mim, resolvi me alistar. Acredito que um filho deve, somente, orgulhar os seus pais. Como não tenho pai, a minha mãe foi quem fez os dois papéis. Quando estava entre 17 e 18 anos de idade, alistei-me. Passei por várias seleções, mas como eu tinha acabado de fazer um curso de salva-vidas, acredito que eles deram preferência, devido ao condicionamento físico em excelentes condições. No início de 2009, fui para o Exército Brasileiro. Os primeiros anos foram difíceis. A saudade da família e dos amigos, além dos treinamentos de recruta, que eram puxados, fizeram-me cogitar sair, mas com o passar do tempo, foi ficando mais tranquilo e, no final, resolvi ficar. O ano de recruta foi fundamental para a minha vida pessoa. Tornei-me um ser humano mais educado e responsável com as minhas obrigações.

E como você chegou ser selecionado para a missão brasileira no Haiti?

Passaram uma relação solicitando voluntários para missão do Haiti. Achei interessante a oportunidade de poder ajudar um povo tão sofrido, porque eu sabia das condições do País e que lá era o lugar certo para mim. Além da oportunidade de conhecer culturas novas e fazer novas amizades. Então, coloquei o meu nome à disposição. Fizeram uma seleção no batalhão de Joinville e os mais qualificados, no momento, foram escolhidos para a missão. Soube que eu fui selecionado para o treinamento e fiquei muito contente pelo reconhecimento dos meus serviços prestados ao Exército. Minha mãe ficou feliz e preocupada ao mesmo tempo, pois não sabia como era o Haiti. Sabia, apenas, que estava passando por necessidades e conflitos entre a população. Além disso, ela pensava no tempo que eu ia ficar longe, sete meses. Treinamos dia e noite, durante seis meses, instruções teóricas e praticas em vários lugares de Palhoça, Florianópolis e Joinville. Foram treinamentos intensos e desgastantes, porém necessários. Quando acabou o treinamento, tivemos um período de 30 dias de férias para nos recompormos e ficarmos com a família. Em janeiro, retornamos aos treinamentos e, em abril, embarcamos.

Como você descreve a experiência que teve?
De fato, foi a maior experiência da minha vida. Vi coisas inacreditáveis. Chegando ao País, a primeira coisa que me marcou foi ver uma criança de, aproximadamente, nove anos de idade com uma garrafa pet pegando água de um bueiro, para beber. Vi também várias pessoas pegando água dos valos para tomar banho. As ruas todas cheias de lixo.  Foi apenas o começo de todas as coisas marcantes que vi em um pais muito poluído e todo destruído por causa do terremoto que teve em 2010, a maior atrocidade do Haiti. Eu fazia várias patrulhas nas ruas, tendo bastante contato com a população. Muitas pessoas dormiam nas ruas, em cima de veículos. Eram crianças jovens e idosos. A principal renda do País é baseada no comércio de artesanatos e carvão. Os alimentos eram vendidos no chão das próprias ruas. Em sua maioria, tais alimentos eram vendidos em um comercio que se chamava cozinha do inferno. O nome já diz tudo: alimentos cobertos de moscas. Animais eram sacrificados na hora (porco, cabra, gato), além de comercializarem bolacha feita de barro. Em volta do comercio, o lixo predominava. Pude ver, também, que as mulheres de lá trabalhavam bastante. Carregavam mercadorias em cima da cabeça e saiam nas ruas para vender. Muitas crianças moravam na frente da nossa base. Fiz amizade com um menino de 13 anos que morava lá: O Junior. Conversávamos bastante. Ele contou que perdeu sua mãe no terremoto e o pai não sabia onde estava. O menino era muito educado e inteligente. Falava o português muito bem, porque aprendeu com os outros soldados brasileiros que lá estiveram. Era triste saber que uma criança não pode ter a chance de ter uma família, uma vida digna ou ate mesmo uma infância. Por isso, a gente sempre ajudava e lhe aconselhávamos a estudar. Eu ficava muito feliz de poder ajudá-los. Sempre distribuíamos água e íamos às escolas fazer brincadeiras com as crianças: a felicidade deles nos fazia ter a sensação de um dia de missão cumprida. Nós sabíamos que não iriamos mudar as dificuldades do País, mas naqueles momentos pareciam que eles esqueciam de seus problemas e se divertiam muito. No final, a sensação de que fizemos nossa parte era muito satisfatória. Eu acredito em Deus, mas não sou um cara religioso, porém sempre rezava para o que o Senhor iluminasse aquelas pessoas, porque lá nós víamos que precisavam muito de Deus. As condições de vida deles são desumanas. O que mais me deixou abalado foi ver as crianças passando por necessidades e saber que elas só estavam começando a vida de sofrimento. Os idosos que passaram por toda uma vida de dor e sofrimento e estavam, apenas, esperando a hora de descansar deste mundo e morrer sem ter uma vida decente. A minha maior dificuldade lá era a saudades da família e dos amigos.  Sem contar o calor que era de matar, chegava a 45 °C ou mais. O Brasil era o país que eles mais gostavam, pois, como nós, eles também adoram futebol, além de sermos uma tropa mais amigável. Uma coisa que me impressionava era que, apesar de todas as dificuldades, eles sempre estavam sorrindo e fazendo brincadeiras. É um povo bem unido. Entre eles, viviam escutando musicas e fazendo festas nas ruas, acredito que era para esquecer os problemas da vida. Não tenho como descrever tudo o que vi ou senti. Só estando lá para ver a sensação de estar em um dos lugares mais pobres que já vi. Isso, para mim, foi importante, pois vou levar essa experiência para vida toda. Na vida, como todos tenho dificuldades, mas agora vejo que são apenas pequenos obstáculos que podem ser superados com o tempo, não chegam nem perto do que vive um haitiano. Eu não reclamava da minha vida, porém como todo ser humano, não estava satisfeito com tudo, mas com essa experiência que tive, valorizo tudo o que tenho: desde um pão para comer de manhã, até a casa onde moro. Tenho que levantar todos os dias as mãos para o céu e agradecer por ter uma vida digna e saudável.

Você continua no Exército? Tem previsão de participar de outras missões?
Continuo, sim. Daqui a dois meses, completam-se quatro anos que faço parte do Exército Brasileiro.  Agora, estou de férias. Por enquanto, não há nenhuma previsão de futuras missões, mas se surgir, irei sim, com muita satisfação, e aviso onde vai ser. Gostei muito dessa missão, aprendi bastante com as experiências que tive.

Há alguma mensagem que você queira deixar aos leitores que nos lêem?
Dê valor às pequenas coisas que você tem. Agradeça a Deus por você ter um prato de comida em sua mesa. Não reclame de sua vida, pois pode ter certeza que sempre tem alguém pior que você. Sempre que puder ajudar o próximo, faça a sua parte, pois nunca se sabe: um dia quem pode precisar de ajuda é você! Tudo pela paz.

Do Diário de Itapoá, com informações e fotos de Raphael de Almeida.


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