"Valor Econômico" fala sobre o Porto e a economia de Itapoá Imprimir E-mail
Economia
Sex, 18 de Fevereiro de 2011 08:30

De Itapoá - Apesar de ainda não ter entrado em operação, o porto de Itapoá já é responsável pela chegada de profissionais de fora da cidade. Atraído pela proposta de emprego, o responsável por planejamento de pátio Vanilson Cruz, 34 anos, mudou-se com a mulher e o filho no fim do ano passado. A família veio de Santos e teve dificuldade para encontrar casa para alugar, por causa da concorrência com o movimento de aluguel de temporada de verão.

Animado com o futuro do porto e com o desafio profissional que resolveu encarar, Cruz já pensa em comprar um imóvel em Itapoá. Assim como ele, outros trabalhadores especializados no setor portuário vieram de fora - de cidades como Santos (SP), Rio Grande (RS), Itajaí (SC) e Navegantes (SC). A previsão da administração do porto é contratar 250 pessoas até o começo da operação. Até agora, 68 já assinaram carteira.

Josiane Alves da Silva, 23 anos, foi, ainda criança, de Itapema, cidade no litoral catarinense, para Itapoá. Trabalhava em uma loja de celulares na cidade, até que apareceu a oportunidade no porto. Ela começou a trabalhar como recepcionista em agosto. Priscilla Osqa, 27, se mudou com o marido para Itapoá na promessa de crescimento profissional. Em uma semana, conseguiu emprego no porto para atuar na área de controladoria financeira. Segundo a administração do porto, a expectativa é que cerca de 70% do pessoal da área operacional poderá ser recrutado entre os moradores da cidade.

O movimento de profissionais vindos de fora da cidade e de empresários que visitam Itapoá a negócios estimulou o arquiteto Carlos Henrique Nóbrega a acelerar o projeto de um hotel em Itapoá. O Baiti fica a poucos metros do porto e oferece um padrão de serviço que a cidade ainda não conhecia.

O projeto é um hotel-boutique com 15 quartos, marina e restaurante de cozinha contemporânea, o Tambaiá, tocado pelos chefs Emiliana e Miduca Carvalho, irmã e cunhado de Carlos Henrique. Para formar a equipe, o Baiti ofereceu curso para 150 pessoas da cidade, que receberam noções de trabalho de garçom, manuseio de alimentos e primeiros socorros, entre outros. Desses, 30 foram contratados. Os demais ficaram com certificado de frequência nos workshops.

O empreendimento foi um projeto da família Nóbrega, natural de Londrina, no norte do Paraná, que visitou a cidade pela primeira vez no fim da década de 70, em férias. A família não revela o valor do investimento de 1,8 mil m2, mas diz que há previsão de ampliação da marina, hoje com capacidade para abrigar cerca de 30 barcos. Em dias de reunião do conselho de administração do porto, o hotel fica com os quartos lotados. "Nós já tínhamos a ideia, mas o porto foi determinante para o investimento", diz Nóbrega.

O prefeito de Itapoá, Ervino Sperandio (PSDB), acredita que a cidade ainda não tenha aproveitado todo o crescimento que o porto será capaz de proporcionar. Apesar disso, o município já vive uma situação de pleno emprego. Segundo Ervino, falta mão de obra principalmente na construção civil. "Aqui a gente tem mais vagas do que pessoas para trabalhar", diz.

O prefeito avalia que Itapoá sai no prejuízo com a contagem do Censo do IBGE, apesar do crescimento expressivo na última contagem. Ervino acredita que a cidade tenha, efetivamente, 20 mil moradores. Muitos deles mantêm casa em outra cidade, mas passam boa parte do ano em Itapoá, usufruindo dos serviços de saúde e educação do município.

Essa desvantagem tem relação com o cálculo do repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que leva em conta a população aferida pelo IBGE. Em 2010, Itapoá recebeu R$ 5,5 milhões de FPM, a principal receita municipal. Com a entrada em operação do porto, Ervino espera que a prefeitura passe a contar com mais R$ 500 mil mensais de Imposto Sobre Serviços (ISS), algo semelhante ao que o porto de Navegantes passou a contribuir com a prefeitura daquela cidade.

Para Raul Delavy, sócio da Imobiliária Atlântica, em Itapoá, a cidade ainda não sentiu o impacto que o porto será capaz de gerar sobre o mercado de imóveis. "A valorização real vai começar quando ele entrar em operação", acredita.

Hoje, lotes na primeira quadra do mar variam entre R$ 45 mil e R$ 120 mil - com tamanhos entre 360 m2 e 384 m2. Delavy acha que esses valores vão passar por uma revisão tão logo o fluxo de pessoas comece a aumentar. Para o empresário do ramo imobiliário, a cidade ainda mantém o aspecto de local de descanso.

Nas áreas voltadas para atividade industrial, ainda há muita irregularidade. Segundo Delavy, do espaço reservado para a atividade retro portuária, apenas 20% têm documentação em dia. Os valores praticados ainda ficam na faixa de R$ 25 o metro quadrado, mas Delavy acredita que possam passar a valer R$ 45 em breve.

Fonte: Valor Econômico/JP.


Investimento em porto muda rotina da pacata Itapoá

O arquiteto Carlos Henrique Nóbrega deixou São Paulo para viver em Itapoá, ao norte do litoral catarinense, em 1999. Naquela época, o balneário de 27 quilômetros de praia tinha cerca de 8 mil habitantes. "Quando eu cheguei aqui, ninguém tinha endereço. Todo mundo era obrigado a ir buscar correspondência no correio", conta Nóbrega.

A cidade era procurada por paranaenses e catarinenses interessados em encontrar terrenos com preços abaixo da média do litoral de Santa Catarina. Uma praia com águas mornas e que oferecia certa tranquilidade aos aposentados que tinham projeto de aproveitar a vida perto do mar.

O anúncio de um investimento de R$ 475 milhões ajudou a mudar o curso da vida em Itapoá. Ao sobrevoar a cidade, em 1994, o empresário Hildo José Batistella encontrou um lugar interessante para instalar seu empreendimento. A profundidade natural de 16 metros em uma praia pouco habitada, na baía da Babitonga, parecia o local ideal para receber o projeto de um porto privado.

Com capacidade para movimentar 300 contêineres por ano, o porto Itapoá foi inaugurado em dezembro de 2010 e ajudou a cidade a dar um salto de 67,16% em população na comparação entre o Censo do IBGE de 2000 e 2010, quando foram contabilizados 14. 282 habitantes no município. Em 2000, eram 8.839.

Ainda em fase pré operacional - o porto necessita da licença alfandegária -, a expectativa é que os navios comecem a chegar neste semestre. O empreendimento do Tecon Santa Catarina, em Itapoá, é formado pela parceria entre os grupos Aliança e Hamburg Süd, com 30% de capital, e a Portinvest, com 70%, composta por 60% de capital do grupo Batistella e 40% do Fundo de Logística Brasil (FIP), que é administrado pela BRZ Investimentos.

O atraso na entrega da SC-415, uma estrada de acesso ao terminal portuário, que vai encurtar em 14 quilômetros a distância percorrida pelos caminhões, também adiou os planos de início das operações. A previsão do governo do Estado é que em abril o trecho seja entregue.

Apesar de ainda não estar a pleno vapor, o porto já impulsionou mudanças na economia de Itapoá. O investimento, que chegou a ser colocado em dúvida por muitos na cidade, teve licença de instalação aprovada pelo Ibama em 2003. O mesmo ano em que o arquiteto Nóbrega passou a trabalhar no Plano Diretor da cidade, na época como secretário municipal. A partir daí, as ruas foram batizadas em sistema numeral.

O comércio e a vida social da cidade se desenvolvem ao longo da avenida principal, que vai mudando de nome em sua extensão de 42 quilômetros. A peculiaridade da via é o trajeto sinuoso. Itapoá foi formada por áreas de loteamentos, que em 1989 pertenciam ao município de Garuva. Quando os loteamentos foram aprovados, na década de 60, não houve preocupação de "encaixar" as ruas de um terreno com o outro. Por isso, a avenida principal acabou desenhada com joelhos e cotovelos, resquício da falta de planejamento urbano.

Desde o início, o Plano Diretor incluía o porto como um equipamento importante para a cidade. A retro área portuária de 11,8 milhões de metros quadrados terá o ruído amortecido pela vegetação remanescente, para não interferir nas atividades turísticas do restante da praia.

O espaço já começa a receber os primeiros investimentos e a tendência é que empresas do setor logístico comecem a olhar com mais atenção para Itapoá. A Fastcargo, com sede em Campo Bom, no Rio Grande do Sul, foi uma das primeiras a adquirir terrenos. Em 2007, comprou uma área de 1,2 milhão de m2.

A primeira fase do empreendimento - um terminal para contêineres com 127 mil m2 de área - deve ficar pronto em novembro. Segundo Fernando Gomes Ferreira, diretor do Centro Logístico Integrado Fastcargo em Itapoá, o investimento previsto para a primeira fase é de R$ 120 milhões. A empresa tem planos de ampliação para o local e depende de licenciamento para dar continuidade à obra. Uma segunda etapa, com 96 mil m2, já está em fase final de aprovação e terá espaço para armazenagem de carga refrigerada.

Além da Fastcargo, a Maersk Brasil Brasmar investiu R$ 15 milhões em um terminal para armazenagem de contêineres vazios de 51 mil m2 na primeira fase. Segundo o gerente do terminal, José Adriano da Silva, na primeira fase haverá capacidade para 5 mil contêineres. A empresa está em fase de seleção e de trabalhadores e deve contratar 126 pessoas nos próximos meses. A intenção é iniciar as operação neste semestre.

O grupo Coopercarga, com sede no município catarinense de Concórdia, e que já atua na retro área do porto de Itajaí, confirmou no começo deste ano a aquisição de uma área. Segundo informações da empresa, o terreno foi comprado por meio da cooperada Comlog.

O projeto, que ainda está em fase de desenvolvimento, prevê um terminal de contêineres e uma estrutura voltada para o motorista, com posto de gasolina e restaurante. A Coopercarga ainda não tem um prazo para o início das operações.

Fonte: Valor Econômico/Júlia Pitthan | De Itapoá (SC).

 

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